Um “desconvite” aos caiçaras

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O desabafo de uma liderança caiçara do litoral sul de São Paulo rodou recentemente pelas listas de discussão das redes e movimentos socioambientais e reativou uma discussão de longa data: o modus operandi das chamadas King ONGs na relação com as pequenas organizações, com os movimentos e com as comunidades.

Quem enviou o e-mail para as listas foi Dauro Marcos do Prado, presidente da União dos Moradores da Juréia, região onde comunidades caiçaras há quase 25 anos enfrentam as restrições impostas ao seu modo de vida após a criação de uma unidade de conservação. O recado é direcionado à ONG SOS Mata Atlântica, famosa na sociedade em geral por sua atuação em defesa do bioma e conhecida no meio do terceiro setor também por omissões em embate contra empreendimentos de grande porte.

Com colocações bastante duras, Dauro denuncia o que para ele significa um boicote às comunidades caiçaras no contexto de conservação da Mata Atlântica no litoral sul de São Paulo e Vale do Ribeira. Na opinião dele a SOS Mata Atlântica, que tem como presidente o empresário do ramo de celulose e papel e maior plantador de eucaliptos do Paraná, Roberto Klabin, “sempre foi contra as comunidades da Juréia”. E aponta este fator como um dos motivos que impedem os caiçaras de “avançar na conquista do território”.

O que ocasionou o fato foi um “desconvite” à participação da liderança caiçara no TEDx Vila Madá, que teria tido a influência da SOS MA. Uma questão pontual que explicita conflitos que a organização pode estar enfrentando nas comunidades onde atua.

Marcia Hirota, uma das diretoras da instituição, enviou um e-mail de esclarecimento às listas na internet. Ela nega a acusação de boicote: “pelo contrário, trabalhamos com estas comunidades na região da Juréia e também em outras áreas de Mata Atlântica”. E diz que a SOS Mata Atlântica não interviu na questão do “desconvite”, não sendo necessário se alongar para explicar a forma como trabalham, “procurando ser inclusivos, procurando envolver as pessoas e instituições”. Como exemplo, Hirota cita, em sua mensagem, o sucesso do Viva a Mata 2011, evento anual realizado pela ONG que de acordo com ela neste ano envolveu mais de 100 entidades nas atividades.

Sucesso do evento à parte, é verdade que em lutas recentes pela conservação de importantes áreas da zona costeira no bioma atlântico e pelos direitos de comunidades tradicionais caiçaras e indígenas a SOS Mata Atlântica se absteve. Para exemplificar, basta citar os processos de resistência contra a construção de uma barragem privada no Rio Ribeira de Iguape e de um complexo industrial e portuário privado em terra indígena na divisa entre Itanhaém e Peruíbe. E, ainda, a pressão para a criação de uma área protegida na região da Praia do Itaguaré, em Bertioga.

Nos três casos acima citados importantíssimas áreas de restinga de Mata Atlântica estavam ameaçadas por empreendimentos privados. A barragem em Iguape serviria à produção de alumínio da Votorantin, de propriedade de Antônio Ermírio de Moraes. O porto em terra indígena, de iniciativa da LLX, era uma dessas ideias megalomaníacas do Eike Batista. E a restinga da Praia do Itaguaré estava ameaçada pelos investidores da Riviera de São Lourenço, um condomínio particular onde residem e têm imóveis famílias de classe alta. E todos estes empreendimentos necessitariam, caso fossem avante, de compensação ambiental, servindo de meio de captação de recursos para organizações que se omitem de lutas sociais importantes em nome de financiamentos.

A resistência ficou a cargo de instituições menores e grupos de base, que não puderam contar com todo o acesso à mídia, todo o potencial de mobilização da opinião pública e o peso institucional da SOS Mata Atlântica, que simplesmente se absteve destes processos. Levando em consideração que a organização tem como missão a proteção e defesa do bioma, este apoio era de se esperar.

E agora a Baixada Santista está na mira da organização. Aguardemos e antenemo-nos às cenas dos próximos capítulos.

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